quarta-feira, 12 de maio de 2010

O governo de George W. Bush como uma soberania hobbesiana?

Para o teórico da política clássica Thomas Hobbes (1588-1679), o homem, em estado de natureza, que vive sozinho e é incapaz de saber o que o outro pensa, está em uma constante prontidão para o conflito com o outro. Um homem em estado de natureza, para Hobbes, ao ressear que um outro o mate, mata este primeiro. Há, com isso, um estado de tensão permanente. Hobbes fala que o homem é belicoso: ele está pronto para a guerra. A vontade de matar o outro, para Hobbes, como característica natural, é impedida, com isso, pela presença do Estado. Falando em termos de George W. Bush, essa lógica de Estado que deveria impedir a morte é invertida – para o Estado que promove mortes.

O contrato social é firmado quando os homens abrem mão de seus estados de natureza; ele cria a possibilidade de lei e direitos. A lei, aqui, atua sobre o direito, limitando-o; a lei é elaborada pelo soberano. O soberano tem a função de deixar os indivíduos vivos, mesmo quando utiliza da morte para manter o contrato. Porém, ao fazer isso, ele cumpre o seu papel de garantir a vida da maioria, mas quebra o contrato com alguns. Estes, neste caso, sentem-se no direito de voltar ao seu “estado de natureza”. Então, quando o governo norte americano decide guerrear com um país que, segundo ele, é considerado “perigoso” para a vida de seus cidadãos, este, na guerra, mata um número enorme de pessoas – do país “inimigo”. Ao fazer isso, quebra-se um contrato, não com os cidadãos deste país, mas com cidadãos daquele país. Isso acaba gerando uma sucessão de guerras e conflitos. Temos, como exemplo, os ataques terroristas como resposta a desentendimentos passados. Geram-se, então, respostas, umas atrás das outras, sempre feitas com a violência, e sempre pautadas na justificativa da garantia da vida de uns em função da morte de outros.

O poder do soberano não pode ser contestado; este é incontestável. O soberano hobbesiano lida com uma visibilidade da morte: ele pode matar sem qualquer justificativa plausível. O estado hobbesiano faz morrer e deixa viver. A guerra passa a ser a justificativa para a manutenção do “bem estar” de alguns. Todavia, para que alguns tenham esse privilégio, é necessário que outros morram (?). Com isso, cria-se uma pergunta: será que são os norte americanos que são os “vilões”, quando declaram guerras e mais guerras, justificadas em sua segurança nacional, ou são os “outros”, quando os atacam, terroristicamente (ou mesmo simbolicamente com slogans do tipo “I hate NY” ou “Odeio muito tudo isso”), também com a justificativa de que são os americanos que ameaçam o bem estar mundial?

Em qualquer época e sociedade, a guerra funciona para manter a sociedade. Quando se escolhe um inimigo, fortalece-se um lado da sociedade. A guerra é um fator de organização social. É pela diferença em relação ao outro que se assemelham alguns. A justificativa da guerra é sempre pautada no risco de que o outro nos mate. É aqui que surge a diplomacia para impedir que caíamos em um imperialismo. Quando um ponto ou uma região do mundo é temida, formam-se vínculos, estabelecem-se parceiros; alianças são feitas. Neste caso, o governo norte americano, ao fazer suas alianças com alguns países, como a Inglaterra, pretende aumentar suas forças, tanto bélicas quanto de apoios às críticas que levariam de muitos.

A guerra é o que fortalece a sociedade, quando, por exemplo, permite que se conheçam as técnicas de batalha dos derrotados, ou mesmo que se obtenham riquezas destes, como, no caso americano, o petróleo iraquiano. A justificativa da morte é utilizada para atingir outras metas, mesmo que esta morte seja simbólica. Derrubar a estátua de Saddam Hussein como uma das primeiras ações depois de tirar o ditador do poder, com isso, significa pôr no chão uma imagem; contudo, ao cair uma imagem, erguem-se outras em seu lugar. A soberania, deste modo, passa a ocupar outros patamares que não apenas a figura de uma única pessoa; ela torna-se incogniscível e não identificável.

Um comentário:

  1. comentário de:http://pontoemquestaopucsp.wordpress.com/

    Achei que não ficou muito clara a questão do contrato.
    A meu ver, o contrato que o presidente Bush tinha, era com os americanos, logo ele quebra o contrato com os soldados que acabam correndo riscos, inclusive morrendo em nome da defesa do país.
    É claro que os motivos de Bush são não só de posicionamento enquanto uma potência mundial, através do mercado do medo, mas também imperialista na tentativa de dominar produtores de petróleo.
    Também é bem óbvio que essas posições norte-americanas não são legítimas, inclusive indo contra a ONU na invasão do Iraque. Mesmo assim, me parece que nunca existiu um contrato entre Bush e o resto do mundo por exemplo.

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